[Brasília]: Os últimos Tapuyas

Relato de @leandrojacruz após passar uma semana entre os índios Fulni-ô, ameaçados por grileiros “alto-nível” com Paulo Otávio e Daniel Dantas, em Brasília.
Os últimos Tapuyas

Mal consigo andar quando chego de volta ao território dos fulni-ôs, os últimos tapuyas, próximo à capital federal. Já estou praticamente sendo carregado. Meus joelhos estourados me ensinam que talvez seja melhor andar mais devagar e, com certeza, carregando menos peso. A cada dia tenho mais certeza disso e aprendo mais profundamente que devemos sempre carregar menos, ter menos, pois isso é ter mais. Mas me desfazer da maior parte da bagagem agora já não resolve o fato de que a essa altura minhas juntas parecem bolas de basquete.
Junto à fogueira, Tainã “Wawa” e Choá cantam uma música ancestral em sua língua, o yaathê (do tronco macro-gê), da qual eu não compreendo sequer uma palavra, mas sinto a emoção e entendo. De todas as etnias indígenas do Nordeste, apenas os fulni-ôs preservaram seu idioma mesmo após 500 anos de invasão europeia.

Tapuyas eram os índios do interior (cerrado e
caatinga) do tronco Macro-Gê

Awá Mirim fuma sua chanduca em silêncio. Quando eles fazem isso, estão conversando em pensamento com o Grande Tupã. Talvez esteja pensando na luta, na violência com que os grileiros tentaram invadir a terra na semana anterior. Talvez Awá esteja pensando na esposa e na filha, que junto com as outras mulheres e crianças foram levadas dali para um lugar seguro por prudência, afinal, nos últimos dias a tensão e as ameaças de morte aumentaram. O pajé Santxiê fala para eu me acalmar, deitar na rede e relaxar, tirar um cochilinho e depois entrar na mata. A única outra pessoa branca presente naquele momento além de mim, cujo nome eu não me lembro, me aconselha: “Você devia ir ao médico”. Respondo: “Já vim”.
O velho pajé volta com uns ramos de aroeira na mão e uma pelota de resina de uma árvore que só ele deve saber qual é. Prepara o chá, molha com ele a resina que vira uma gosma cor de âmbar que aplica sobre meus joelhos e me manda beber um pouco da infusão. “Fique perto da fogueira, que o calor ajuda. Amanhã você vai estar bonzinho, bonzinho”, garante Santxie.
E era bom que eu estivesse bom mesmo, pois a essa altura eu já estava sendo contado entre os guerreiros e já tínhamos a informação de que no dia seguinte, segunda-feira, os tratores das empreiteiras Emplavi e Brasal voltariam com escolta da Polícia Militar para terminar o serviço de destruição da mata-santuário, onde empresários como Paulo Otávio e Daniel Dantas pretendem construir o bairro mais caro da história de Brasília.
Das milhares de espécies medicinais que há naquela mata, mais as que o pajé cria no seu herbário, veio a ser a aroeira que me curaria. Me lembro que a última vez que estive em Brasília acabei sendo preso pela Polícia do Senado justamente por plantar uma muda dessa árvore.
Na natureza funciona assim: você rega, dá água a uma planta quando ela é pequena, e as grandes te dão galhos para o fogo que te aquecerá à noite. Você cuida delas que elas cuidam de você.

Domingos Jorge Velho, o “Anhanguera,
foi um dos grandes exterminadores de índios
da região onde hoje fica Brasília

No mundo dos brancos não é assim: é só ingratidão. Penso na saga dos fulni-ôs, que habitavam o cerrado e a catinga. Foram um dos primeiros povos a ser massacrados e expulsos de sua terra. Ficaram anos e anos sem poder retornar à montanha sagrada à qual devem peregrinar todos os anos para a celebração do Ouricuri, em Pernambuco, onde vive a maioria dos fulni-ôs.
Durante a Guerra do Paraguai, aquela vergonhosa guerra que o Brasil lutou pela Inglaterra, os fulni-ôs receberam uma promessa: se enviassem guerreiros para o front receberiam de volta a montanha sagrada. Muitos morreram sem nem mesmo saber os reais motivos da guerra. O Estado não cumpriu sua promessa e só devolveu a montanha do Ouricuri no início do século XX, mas não devolveu terra suficiente para assentar todas as famílias em seu modo de vida tradicional.

Durante a Guerra do Paraguai (1864-1870) índios
Fulni-ô foram levados a Campos de Concentração
e seus melhores guerreiros obrigados a lutar pelo Brasil.
No início do século XX puderam voltar a Pernambuco (foto)

Nos anos 50, mais uma vez, os tapuyas foram enganados. Por conhecerem bem o cerrado, seus perigos e poderes, muitos foram levados ao Planalto Central para trabalhar na construção da nova capital. O avô, o pai e tios de Santxie foram índios candangos, ainda mais explorados e desrespeitados que os demais operários que trabalharam erguendo a cidade faraônica. Como sua religião exige a imersão na mata e o isolamento (seus rituais não podem ser vistos por gente de outros povos), os fulni-ôs se retiravam dos canteiros de obras para uma área junto ao córrego do Bananal, importante para diversas tribos que antes da catastrófica passagem do bandeirante Anhanguera (um dos maiores genocidas de nossa história) pelo Planalto Central habitavam ou transitavam por aquela região.

No dia 16 de agosto de 2011, a polícia do Distrito
Federal, agindo como milícia privada de empreiteiras,
escoltou uma operação ilegal de destruição do
cerrado que, mesmo assim, foi impedida pelos tapuya

Ali, por gerações, nasceram e foram enterradosjunto às árvores sagradas das quais mais de 150 mil serão derrubadas para a construção do “primeiro bairro ecológico de Brasília”. Os pajés fizeram dali também um local de cura e assistência para os seus “parentes” (todos os indígenas que passam por Brasília ao longo dos últimos mais de 50 anos. Santxie vem cuidando de todos os que precisam há muito tempo. Ali, no local que ficou conhecido como Santuário dos Pajés, viveram em paz, cultivando seus usos e costumes… Até o governo Arruda.
(Parte 2)
Acordo com os primeiros raios de sol e com o barulho de folhas caindo e das aves do Cerrado que também levantam cedo. Nem dá para lembrar que estou na capital da República. O território indígena é tão… preservado, natural, terráqueo.
Ainda não se dissipou o frio da noite, mas Santxiê Tapuya, o pajé, já toma seu banho gelado ritual… de canequinha. Há tempos que tomaram o córrego do Bananal (que dá nome à terra em disputa) dos índios. As três nascentes que havia ali perto foram aterradas pelas empreiteiras que já constroem edifícios de luxo a menos de 500 metros da entrada do santuário fulni-ô. Não bastasse isso, a rede de água comprada do sistema dos índios também foi sabotada numa tentativa de minar a resistência da comunidade. Ainda assim eles resistem. Mesmo sendo os únicos guardiões da última região em que o chão não foi impermeabilizado, permitindo a alimentação dos lençóis freáticos que alimentam o Paranoá, que, por sua vez, abastece Brasília. O resultado é que a maior parte do herbário fitoterápico (que garantia remédio a muita gente e recebia visitas de alunos de escolas de Brasília) e a produção de mudas para reflorestamento tiveram de ter sua produção reduzida drasticamente pela falta de água.
“Txorichacá, tá na hora!”, grita o xamã. Txorichacá é meu “nome tribal”, na verdade um apelido que Tainã, Mádjoa e Choá me colocaram por causa do meu cabelo comprido e bagunçado. Significa macambira (Bromelia laciniosa), uma espécie de bromélia suculenta típica da Caatinga, onde surgiram os fulni-ô. “É uma planta boa. Guarda a água, a vida, dentro dela. Ela salva o índio na seca, quando falta vida”, foi o que me explicou Choá para que eu visse o lado bom de ser apelidado de macambira. Tá valendo. Curti.
Vejo guerreiros pintando seus corpos, colocando seus adornos de penas, pegando seus arcos, bordunas e lanças. Pego também minha arma, a câmera de mão que eu uso para fazer vídeos para a internet (é importante hoje sempre filmar a cara e a placa dos carros de todo canalha). Ainda tenho nas costas os padrões tribais traçados com tinta de jenipapo (isso demora dias para sair), mas também faço questão de passar urucum no rosto.
Desde que os conflitos com os grileiros que usam o governo do Distrito Federal começaram, já esfaquearam um índio que defendia o Cerrado e incendiaram a casa da família do irmão do pajé. Três anos depois, o incêndio criminoso (como comprovam os galões de gasolina) ainda não foi investigado pela Polícia, principalmente por que a suspeita recai sobre o alto comando da Terracap, empresa do governo do Distrito Federal que loteia e vende para as empreiteiras.
Talvez o fundo da Caixa de Pandora esteja ali, na terra indígena Bananal (o Santuário dos Pajés) onde empresas como o grupo Opportunity (de Daniel Dantas) e a construtora de Paulo Octávio, ex-vice governador do DF, compram projeções pagando menos de R$ 600 mil. Projeções essas onde serão construídos apartamentos de um quarto custando mais de R$ 2 milhões.
Corro para a entrada principal da terra indígena e só então me dou conta de que voltei a andar. A aroeira do pajé funcionou e vive em mim. A jurema vermelha (Mimosa ophthalmocentra) que ainda corre no meu sangue pode estar ajudando. Talvez tudo isso seja simplesmente a mata me cuidando e usando como parte, como célula de seu corpo, de seu sistema de defesa.
No dia 16 de agosto as empreiteiras vieram com escolta da PM e começaram a derrubar o Cerrado para começar as obras e foram impedidos pelos índios e por colaboradores. A ação foi ilegal já que a demarcação da área indígena não foi concluída pela Funai e a Justiça Federal não deliberou definitivamente sobre o assunto.
Então penso nos vizinhos do oeste, o chamado Acampamento Indígena Revolucionário, liderado por Korubo, um índio peruano que lidera uma aldeia multiétnica há cerca de três anos nos fundos de Bananal. O AIR reúne descendentes de indígenas que perderam suas terras e viviam nas ruas. Tirados das ruas, foram ocupar, em vez de terras da União ou terrenos desocupados, o solo sagrado dos fulni-ô. O AIR não se comporta como célula de um organismo. Talvez faça parte de uma outra luta justa (a luta por moradia e reparação de danos históricos a sobreviventes órfãos de sua cultura indígena em situação urbana sem-teto), mas não tem a ligação histórica e espiritual que os fulni-ôs do santuário, que ainda defendem seu modo de vida tradicional. Estariam eles sendo manipulados para aceitarem acordos financeiros ou outras terras? Em troca disso, os indígenas (a maioria xavantes e guajajaras) criam a falsa impressão de que a comunidade tradicional dos tapuya fulni-ô estivesse dividida. Ninguém sabe explicar de onde vêm os recursos do acampamento de Korubo, nem o álcool. Mas a impressão que eu tenho é que a instalação do “Acampamento Revolucionário” ali é só a continuação da velha tática de usar índios contra índios.

O Acampamento Indígena Revolucionário,
multiétnico, nasceu como um movimento legítimo
por moradia e reparação; depois foi convencido
a se mudar para a terra dos Fulni-ô afim de
tumultuar o processo de demarcação

A Polícia apareceu para fazer pressão. Máquinas como as do crime de 16 de agosto circulavam na entrada da terra indígena a semana inteira. Sempre se sentiam intimidados pela câmera e pelos guerreiros armados com armas artesanais.
Durante uma semana foi assim. Policiais e máquinas. Helicópteros passando sem parar, dando rasantes na reserva, aterrorizando, sobretudo, os bichos (tucanos, emas, seriemas, etc.). “Dessa altura daria para acertar umas flechas”, escuto.
No final da semana uma decisão judicial pôs fim ao assédio (pelo menos por enquanto). O relatório antropológico ficou pronto na semana seguinte, mas a Funai segue prevaricando e ainda não marcou a remarcação. Até lá, todo o lobby dos banqueiros e empreiteiras íntimas de gente poderosa dentro do governo do Distrito Federal tentará reverter as coisas, custe o que custar. O estado de guerra continua

Fonte: OngCea citando http://blogviagemnotempo.blogspot.com/2011/09/os-ultimos-tapuyas.html.


Alfabetização de adultos: Exemplo vindo de Cuba

Pescadores brasileiros são alfabetizados com método cubano

Um total de 79 pescadores da cidade de São Gonçalo, estado do Rio de Janeiro, foi alfabetizado com o projeto “Pescando Letras”, desenvolvido a partir do método cubano para a alfabetização de adultos “Yo, si puedo” – cuja eficácia foi reconhecida por organismos internacionais como a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) –, segundo informou o site Cuba Debate.

O projeto, promovido pela secretaria de Educação e a subsecretaria de Agricultura e Pesca, consiste em oferecer alfabetização, educação, cidadania e qualificação profissional a pescadores durante o período chamado “tempo morto”, em que a pesca fica proibida ou controlado no litoral.

Durante o curso, cuja duração é de seis meses, os pescadores foram alfabetizados por meio de vídeo-aulas, receberam instrução sobre Educação Cidadã e qualificação profissional. As mulheres dos pescadores participaram de aulas de artesanato, onde aprenderam a limpar, preparar e montar escamas de peixes para transformá-las em acessórios femininos, como brincos e colares.

No ato de entrega dos certificados, a prefeita de São Gonçalo, Aparecida Panisset, agradeceu a colaboração cubana no programa: “Saber ler e escrever é sair das cavernas e ver a luz, descortinar as coisas que a vida oferece”.

Yo, si puedo

Criado em 2001 em Cuba, o método de alfabetização “Yo, si puedo” consiste no uso de meios audiovisuais para o ensino. O programa foi utilizado para ensinar a ler e escrever em muitos lugares do mundo, especialmente na América Latina.

Na Venezuela foram alfabetizados um milhão de pessoas em cinco meses e 27 dias nas 34 línguas e etnias que existem na nação sul-americana. A Bolívia, em 2008 – foram 819.417 pessoas alfabetizadas em um universo de 824.101 analfabetos detectados (99,5%) e a Nicarágua, em 2009, também usaram o método. O programa existe também em cidades do México e Argentina.

Fonte: OperaMundi

Gentileza gera Gentileza

Uma atitude solidária que deve ser demonstrada e praticada diariamente. O Poeta Gentileza serve-nos de exemplo!

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Aqui em Brasília, houve uma reportagem do DFTV sobre essa campanha que chegou a nossa cidade vinda do Rio de Janeiro. Só não concordo com o termo “campanha”, pois denota algo sazonal e temporário. A Gentileza é uma atitude, virtude perene, contínua no tempo e universal. Assim consegue transformar o homem e, por conseguinte, o mundo.

Lugar de Girafa é na Africa

Esse abaixo assinado faz parte de uma campanha pela não importação de três girafas da África, para ficarem em exposição no Zoológico de Sapucaia do Sul/RS.

É necessário mudar essa cultura que permite retirar animais do seu habitat natural para servirem de objeto de contemplação, em recintos impróprios, para simples “diversão” do ser humano.

Fonte: OngCea

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Zoológico: para quê?

O vegetarianismo e a ética animal e ambiental

Assino embaixo! Pela minha saúde, dos animais, e do planeta!

Para o ativista e ambientalista da União Protetora do Ambiente Natural – UPAN, Márcio Linck, a forma mais coerente de proteger os animais começa por cortar a carne do prato. Segundo ele, defender os direitos dos animais significa “assumir uma condição de responsabilidades e cooperação com essa tênue cadeia harmônica em que a vida poder ser manifestada”

Vegetariano há mais de 20 anos, Linck argumenta que não consumir produtos de origem animal significa preocupar-se com a “sustentabilidade o futuro do planeta”. Para ele, “a ética ambiental deve romper com o antropocentrismo e encarar os desafios para além do ambientalismo. (…) Se ética não atingir a dignidade e o respeito a todas as formas de vida, então ela é torpe e sem valor. Na atual conjuntura, não há como o discurso ambiental ser moralmente respeitado e aplicável e eticamente aceitável, se não incorporar a defesa do vegetarianismo e do veganismo”.

Em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail, ele reflete acerca dos problemas ambientais e sociais gerados pela produção de carne bovina e informa que “são gastos em média 15 mil litros de água para produzir um quilo de carne, enquanto para o mesmo quilo de vegetais se utiliza em media, mil e quinhentos litros”.

De acordo com Linck, o vegetarianismo é um estilo de vida que “rompe com o antropocentrismo e o com especismo, que é o preconceito em relação a uma outra espécie, apenas por ela ser diferente em relação à forma e à [crase]aparência e assim um menosprezo para com suas suas vontades e direitos básicos”.

Linck é graduado em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. É membro do GAE-POA, Grupo pela Abolição do Especismo e autor do livro Para Além do Ambientalismo – Uma História em Duas Décadas (2008).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Por que não deveríamos comer produtos de origem animal?

Márcio Linck – Em primeiro lugar, por razões éticas e de respeito à vida. O que não quero que façam para mim ou para meus semelhantes afins eu não faço para os outros, no caso os animais. As granjas e modernas fazendas de produção intensiva constituem-se em verdadeiros campos de concentração, onde o holocausto é permanente e silencioso. Silencioso porque estão longe dos nossos ouvidos, porém lá estão as galinhas vivendo em espaços minúsculos, sem poder movimentar-se e sem ver a luz do dia, tal como as porcas de parir, aprisionadas e transformadas em máquinas de gerar carne, apartadas de sua prole e sem poder cuidar e dar afeto e proteção aos filhos, tal como é o desejo, de modo semelhante, das mães humanas.

E aí toda uma vida estressante que se inicia com a inseminação artificial, passando pelo corte do bico, dos dentes, do rabo e das genitálias sem anestesia alguma. Uma vida toda de sofrimento e que ainda continua com o transporte em caminhões apertados e culmina com toda a crueldade dos matadouros. Ah! se os matadouros tivessem paredes de vidro, como sugeriu Paul MCartney, “todos seriam vegetarianos!”. Diria que, se todas as pessoas tivessem que matar um animal para obter um pedaço de carne, também teríamos uma maioria vegetariana.

Há também o argumento pela sustentabilidade e futuro do planeta, conforme a situação ambiental. E por fim, pelos fatores ligados à saúde, pois segundo dados da American Dietetic Association – ADA e nutricionistas do Canadá de 2003, que reúne os principais estudos científicos sérios sobre vegetarianismo, os vegetarianos têm 30% menos risco de desenvolver doenças cardíacas, 50% a menos do diabetes, etc.

IHU On-Line – Como define a postura ética e filosófica do vegetarianismo e do veganismo, principalmente no que se refere à proteção dos animais?

Márcio Linck – Penso que essas duas posturas são fundamentais e até sequenciais do ponto de vista prático. Mas é preciso ir além e, embora o veganismo tenha um alcance maior em relação à não exploração dos animais, devemos aprofundar a nossa conduta de responsabilidades frente ao planeta. Tanto o vegetarianismo como o veganismo (este último de modo mais amplo) tem despertado e ampliado o debate a cerca da proteção e dos direitos dos animais no mundo.

Sobretudo, trata-se de um estilo de vida que rompe com o antropocentrismo e o com especismo, que é o preconceito em relação a uma outra espécie, apenas por ela ser diferente em relação à forma e à aparência e assim um menosprezo as suas vontades e direitos básicos. Assim, os humanos estabelecem uma relação utilitarista para com os animais, explorando-os de todas as formas e transformando-os em objetos de consumo. O discurso e a prática especistas são muito semelhantes em relação ao sexismo (preconceito em relação a diferença de sexo) e ao racismo (preconceito em relação à raça).

Os animais são seres senscientes, dispõe de consciência e sensibilidade sobre sua presença no mundo, tem interesses e direitos inerentes a sua vida como o de procriar-se naturalmente, de relacionar-se afetivamente e socialmente com os companheiros de espécie e daí cumprindo outras funções biológicas, como o de poder escolher o alimento que lhe é próprio ou natural da sua espécie, ter liberdade de movimentos e poder ser feliz! Por que somente o ser humano pretende ser a única espécie a buscar a felicidade? Assim como a espécie humana os animais sentem tristeza, nostalgia, desapontamento, amor, sofrimento, afeto, amizade, medo, esperança, felicidade, raiva, compaixão, sonhos, pesadelos, ciúmes, solidão, solidariedade, curiosidade, etc.

Todos que possuem animais de estimação sabem do que estou falando e a Etologia (ramo da Biologia que estuda o comportamento animal), enquanto ciência, referenda não somente a manifestação desses sentimentos, como também padrões de inteligência, poder de comunicação e até de linguagem em algumas espécies. Como desdobramento desse despertar que o vegetarianismo e o veganismo têm proporcionado, muitas pessoas acabam fazendo a conexão necessária para não mais contribuir através de seus hábitos cotidianos com o sofrimento e a crueldade dos animais utilizados para alimentação, vestuário, pesquisas, entretenimento etc. Há toda uma corresponsabilidade individual e uma justificativa por trás de toda essa cadeia produtiva dos horrores, que mantém os animais num martírio e inferno permanente. Tudo, porque no final do processo está o consumidor das carnes diversas, dos embutidos, do presunto, do bacon, dos laticínios etc.

Outra questão extremamente importante nessa conexão refere-se às incoerências pessoais, quando as pessoas dizem respeitar e amar os animais, no caso aqueles culturalmente e convencionalmente estabelecidos, como os de estimação, enquanto aprisionam, degolam, esfolam, queimam, cortam, espetam e devoram outros. A cultura de um determinado lugar é que impõe essa divisão entre aqueles que devemos amar e proteger e aqueles que devemos explorar, torturar e consumir. O cachorro amado aqui no Ocidente pode ser saboreado em algumas regiões da China, Coreia ou Indonésia, sem dó e piedade alguma. Então, não há diferença entre cachorros, porcos, galinhas, vacas e gatos em relação aos sentimentos e a troca de emoções não somente entre os seus como também para com outras espécies, incluindo a humana.

Postura ética

Quanto aos conceitos que exprimem uma postura vegetariana ou vegana, embora fundamentais, devemos ter o cuidado não só com a rotulagem dos mesmos e o comodismo em achar que tudo está perfeito. Defender os animais também passa por assumir uma condição de responsabilidades e cooperação com essa tênue cadeia harmônica em que a vida poder ser manifestada. As nossas escolhas enquanto consumidor pode afetar os habitats de muitas espécies, como é o caso dos milhares de animais marinhos que são mortos por engolirem os milhões de plásticos e outras embalagens despejadas nos oceanos; ou todo o impacto ambiental gerado por uma conduta consumista, citando o exemplo das latas, cujo alumínio extraído da bauxita pode vir de uma área de floresta composta de uma variada fauna.

O desperdício ou esbanjamento em relação ao consumo de energia (de fonte hidroelétrica) de uma casa pode justificar as grandes barragens e a inundação de grandes áreas de florestas exterminando a fauna ali existente; os resíduos excretórios que expelimos via descarga e que vão parar na rede de esgoto e consequentemente jogados in natura nos rios e lagos, tirando oxigênio dos peixes e demais habitantes aquáticos, constitui-se num desrespeito ao direito à vida destes animais.

Nesse caso, estarei faltando com a ética para com estes animais que não têm nada que ver com as consequências daquilo que consumimos e descartamos. Nesse caso a nossa responsabilidade ética seria a de cobrar do Estado o tratamento desse esgoto antes dele atingir os recursos hídricos e causar todo um malefício aos peixes, anfíbios, répteis e aves aquáticas. Teríamos muitos outros exemplos em relação ao nosso padrão de consumo que afeta diretamente o ambiente natural de muitas espécies. O prejuízo ambiental que afeta a qualidade de vida atinge a todos, animais humanos e não humanos. Por isso, não basta vestir o manto dos rótulos para achar que já atingimos a perfeição ou a salvação. É preciso refletir, aprofundar e avançar! Nesse sentido, uma postura ecoveganista contemplaria nossa responsabilidade em relação a todos os animais e seus habitats.

IHU On-Line – Que impactos ambientais são produzidos pelo consumo de carne?

Márcio Linck – De acordo com a Conservation International, das 35 áreas onde a biodiversidade é mais ameaçada no mundo, 23 têm, como principal causa, a pecuária. 2/3 dos desmatamentos das florestas tropicais do planeta se devem à expansão da pecuária. No Brasil, a floresta Amazônica é um exemplo disso, pois as áreas de pasto triplicaram nos últimos 30 anos e a área desmatada acumulada atingiu, em 2007, 720 mil km2 (18% de sua área total). Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA, 78% do desmatamento da Amazônia Brasileira se deve à pecuária. Antes do pasto ou da soja e milho que serão transformados em ração para o gado, principalmente da Europa e dos Estados Unidos, e antes do próprio gado, estão as queimadas, cuja contribuição para as emissões brasileiras de gases estufa são da ordem de 75%.

Hoje a Amazônia responde por 41% dos abates bovinos no Brasil. Somente em 2006 foram produzidos 2,7 milhões de carne, sendo que desse total apenas 3% é consumido na região, 10% é exportada (lembrando que a partir de 2004, o Brasil tornou-se o segundo maior produtor e o maior exportador de carne bovina do mundo) e 78% é desperdiçada pelo resto do país. Um em cada três bifes consumidos no Brasil vem da Amazônia. Então, essa história de salvar a Amazônia começa pelo prato de cada brasileiro. O resto é balela e hipocrisia. O estado de Mato Grosso, nos últimos anos, converteu 38 mil km2 de floresta em grãos para fazer ração para o gado.

Então, além das queimadas e do desmatamento, a pecuária acarreta a erosão do solo, assoreamento dos recursos hídricos e sua contaminação com pesticidas (mercúrio, fósforo, cloro, chumbo, arsênico e outros) e dejetos provenientes dos hormônios, vacinas, antibióticos, fungicidas, bactericidas e outros fármacos. Sem falar na desertificação, extinção de espécies, chuva ácida e gases estufa.

Impactos ambientais do consumo de carne

Em 2006, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação – FAO divulgou um relatório com mais de 400 páginas, intitulado A Grande Sombra dos Estoques Vivos, que aponta a pecuária como responsável por 18% dos gases estufas, superando os 13% gerados pela queima de combustíveis fósseis. No entanto, a grande mídia pouco fala disso e a maior parte dos documentários referentes às mudanças climáticas e ao aquecimento global insiste em apenas mostrar cenas de chaminés saindo das fábricas e da grande circulação de automóveis nos grandes centros urbanos. É mais cômodo culpar a fábrica e o automóvel do que o hábito de comer carne! Imaginem que se cada habitante do Reino Unido deixasse de comer carne apenas uma vez por semana, isso equivaleria a retirar cinco milhões de automóveis por um ano no mundo.

O estudo da FAO aponta que 37% do gás metano (que é 23 vezes mais poluente que o CO2) provém da pecuária, e aí entra todo o processo digestivo dos bovinos; 65% do óxido nitroso NO2 (gases provenientes do esterco) é gerado pela pecuária, sendo que esse gás é 296 vezes mais nocivo que o CO2 (uma vaca produz cerca de 40 kg de esterco por dia e uma fazenda contendo cinco mil bovinos produz a quantidade de excrementos que produziria uma cidade com cinquenta mil habitantes); e 64% da amônia, que contribui para a chuva ácida e acidificação dos ecossistemas, provém da pecuária. Infelizmente, em 2009, dois cientistas do Banco Mundial recalcularam esses dados para o WorldWatch Institute e chegaram a conclusão de que a pecuária e seus subprodutos respondem por 51 % dos gases causadores do efeito estufa.

A agropecuária é responsável por 70,2% do volume de água retirado dos mananciais ao redor do mundo. Em segundo lugar está o setor industrial (20,02%) e o consumo humano(9,5%). Gastam-se em média 15 mil litros de água para produzir um quilo de carne, enquanto para o mesmo quilo de vegetais se utiliza, em media, 1.500 litros. Nesses cálculos entram não só a água que o boi bebe (cerca de 50 a 70 litros por dia e a vaca leiteira de 110 a 140 litros por dia), mas também a água utilizada na produção de seu alimento e nas diferentes etapas que envolvem o abate do animal (sangria, escaldagem, depenagem, depilação, barbeação, evisceração, lavagem etc.).

O setor da suinocultura no Brasil consome mais de 23 milhões de litros de água por ano e gera efluentes da ordem de 12 milhões de litros por ano. Lembrando que o porco gera de seis a sete vezes mais estrume do que os humanos, ocasionado um poder poluente 50 vezes maios em termos de Demanda Bioquímica de Oxigênio – DBO.

IHU On-Line – Em que consiste uma ética ambiental?

Márcio Linck – A ética ambiental deve romper com o antropocentrismo e encarar os desafios para além do ambientalismo. Atuar em defender do meio ambiente é garantir a sustentabilidade e o futuro não só do homo sapiens, mas de todas as demais espécies que habitam o planeta. Se ética não atingir a dignidade e o respeito a todas as formas de vida, então ela é torpe e sem valor. Na atual conjuntura, não há como o discurso ambiental ser moralmente respeitado e aplicável e eticamente aceitável, se não incorporar a defesa do vegetarianismo e do veganismo. Por isso, uma simbiose dos mesmos.

IHU On-Line – É possível combater a fome a partir do vegetarianismo?

Márcio Linck – Com certeza! Poderíamos eliminar a fome no mundo (incluindo uma política de distribuição de alimentos) se destinássemos uma grande parte da produção agrícola servida aos animais, diretamente aos humanos. É uma insensatez e estupidez ocupar 30% da área produtiva do planeta com a pecuária e utilizar mais 33% de terra fértil com a produção de grãos para alimentar animais. A quantidade de comida consumida apenas pelo gado mundial (não incluindo suínos, caprinos e aves) atualmente equivale às necessidades calóricas de mais de 9 bilhões de pessoas.

O boi constitui-se numa fonte de proteínas de baixíssima eficiência energética, pois converte em carne apenas 7% do que come. Um hectare cultivado com cereais produz cinco vezes mais proteínas do que um hectare destinado a produção de carne, sendo que um quilo desta é necessário de 10 a 15 kg de cereais. Isso sem falar nos custos ambientais e na água utilizada. Grande parte da soja que hoje destrói a floresta Amazônica é exportada e transformada em ração para alimentar o gado europeu e norte-americano. Segundo o jornalista americano Paul Roberts, em seu livro intitulado O Fim da Comida, a Terra pode alimentar 2,5 bilhões de bocas com uma dieta ocidental, rica em carne, ou 20 bilhões de vegetarianos. Portanto até aí entra a ética, a ética da alimentação.

IHU On-Line – Quando o senhor aderiu ao vegetarianismo? Essa opção de vida está relacionada à proteção dos animais?

Márcio Linck – Sim. A forma mais coerente de proteger os animais começa por cortar a carne do prato. Já faz quase 24 anos que tornei-me vegetariano, sendo inicialmente o primeiro motivo o respeito à vida e o amor aos animais. Não poderia mais continuar sendo corresponsável com todo um sistema que implica em sofrimento, tortura e morte de seres dotados de sentimentos e sensibilidade. Hoje eu não precisaria mais ter sentimentos de bondade e compaixão para com os animais para ser vegetariano, pois bastaria a ética e toda a filosofia que coloca os animais no princípio da igualdade de direitos e consideração de seus interesses. O interesse do animal em não sofrer e querer continuar a viver é tão fundamental e importante para ele o tanto quanto esses interesses o são para mim. Podemos viver sem carne e optar por comê-la constitui-se numa preferência, num capricho.

Mas uma preferência não deve estar acima de um direito, quanto mais o direito à vida e a toda sua correspondência, seja em relação à liberdade de movimentos, de escolha dos seus alimentos e da relação afetiva com os seus. Não preciso e não necessito viver em função do sofrimento e da morte de seres indefesos e sensíveis. Mas, com certeza, o amor que tenho pelos animais se mistura com minhas razões éticas. Mas tanto o amor como a ética começam pela boca.

Com o tempo, além da ética, também incorporei outros argumentos em favor de uma alimentação sem carne, tal como a questão ambiental, econômica e as questões ligadas à saúde.

Fonte: IHU Online

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Zoológico: para quê?

Lendo um artigo sobre o zoológico de Sapucaia do Sul, no blog da OngCea, coloquei-me a pensar sobre a necessidade e utilidade dessa instituição. Falo inclusive sobre o daqui de Brasília, que recebe milhares de visitantes por semana, principalmente aos fins-de-semana. Inclusive, nas placas de sinalização pela cidade, o zoológico aparece como “atração turística”.

Manter animais selvagens em ambiente fechado, limitado, muitas vezes totalmente diverso do seu habitat natural é inteligente?

Mantê-los presos em cativeiros com a intenção primordial de entretenimento do “ser” humano  é racional?

Construir no consciente ou inconsciente da população finalidades evidentemente contraditórias com o respeito à vida e à liberdade – leis universais da Natureza – tais como: preservação das espécies, reprodução, pesquisa e educação ambiental (retirados do sítio do Zoológico de Brasília na Internet).

Será que nossa ciência ainda não é suficientemente evoluída para fazer suas pesquisas sem necessitar de prender os animais?

Sinceramente, não consigo entender como se pode preservar as espécies obrigando-as a viver em um habitat que não o natural, como se pode educar ambientalmente as pessoas desrespeitando as leis da Natureza e transformando o ambiente natural em ambiente cada vez mais antrópico.

É tudo muito paradoxal. E o pior, os principais visitantes dos zoológicos são as crianças. E o que estamos ensinando a elas? É essa Educação Ambiental que queremos praticar?

Nesse sentido, gostei de uma experiência feita pelo Professor de Educação Ambiental Genebaldo Freire Dias no zoológico de Brasília. Certa vez, quando ministrava aulas na Universidade Católica de Brasília, ele colocou um homem em uma das jaulas do zoo e pediu para seus alunos registrarem as reações do público. Houve espanto, mas também divertimento. Alguns conseguiram compreender a mensagem do professor. Será que nós, humanos, gostaríamos de estar ali, enjaulados, fora do nosso habitat? Tenho certeza de que não.

Enfim, não desvalorizo as ações para preservação de espécies animais, especialmente aquelas extintas ou ameaçadas de extinção na Natureza. Contudo, não acredito que o modelo dos zoos seja eficaz e moralmente aceito. Os animais recolhidos de cativeiros clandestinos, recuperados do tráfico, salvos de maus-tratos como nos circos, poderiam ser reintroduzidos na Natureza em reservas, parques, etc. Aqueles exóticos ou originários de outros locais nunca deveriam ser retirados de seu habitat original.

Devemos, enquanto seres humanos altamente transformadores do meio ambiente, cuidar para que os animais vivam em seu habitat natural, preservando a flora e não interferindo em demasia nos cliclos climático e hidrológico. Em resumo, vivendo e respeitando as outras formas de vida.