[Brasília]: Orgânicos ajudam a preservar o Cerrado no Distrito Federal

Os produtos são certificados e vêm dos chamados “sistemas agroflorestais”, onde monocultura e veneno são palavras proibidas. Por Aldem Bourscheit / WWF-Brasil
Orgânicos na feira da Estação Biológica (Asa Norte): benefícios à saúde e ao meio ambiente

Faça chuva ou sol, a cena se repete desde junho na feira orgânica da Estação Biológica, no fim da Asa Norte, em Brasília. A estrutura de lona protege as bancadas de madeira onde legumes, verduras, frutas e grãos de 15 agricultores familiares do Distrito Federal atraem dezenas de consumidores de todas as classes sociais nas manhãs de quinta-feira. Em poucas horas, tudo é vendido.
Os produtos são certificados e vêm dos chamados “sistemas agroflorestais”, onde monocultura e veneno são palavras proibidas. Eles associam o cultivo de árvores e verdadeiros alimentos sem uso de agrotóxicos e adubos químicos com recuperação de solo, paisagens e serviços ambientais no Cerrado. O resultado são itens mais saudáveis, que agradam aos olhos e ao paladar.
“Consumir orgânicos valoriza a agricultura familiar e ajuda a nossa saúde e a da natureza, pois deixamos de ingerir itens produzidos com agrotóxicos, valorizamos a biodiversidade e recuperamos a qualidade da terra onde se planta”, explica Gabriel Romeo, produtor e gerente da feira da Estação Biológica.
Além de supermercados, onde o custo é mais elevado, a produção de orgânicos no Distrito Federal pode ser encontrada em quase duas dezenas de feiras espalhadas pela região, se alternando durante os dias da semana. Os agricultores são todos de pequeno porte e, cada um com sua história, aos poucos vêm mudando a realidade produtiva em parte do Cerrado, e suas próprias vidas.

Batalha diária
Produtora em um dos primeiros assentamentos do Distrito Federal, em Sobradinho, a cearense Maria Roseli de Freitas (52) chegou à região com marido e seis filhos, há 17 anos. Peitando grileiros, políticos e a morosidade estatal, passaram um ano e meio debaixo de lona preta, acampados esperando por um lote.
Hoje ela planta e colhe pocã, mandioca, alface, cebola, jiló, pimentão, pimenta, banana, café, milho e mamão, sozinha. Também colhe belas flores com artesanato, cria galinhas no sistema Pais e produz biscoitos peta em uma fabriqueta. Tudo em parte dos 17 hectares de seu lote. Os alimentos são vendidos em feiras em Sobradinho e no Plano Piloto de Brasília.
“Com mais plantas no assentamento melhora a paisagem e reduz o trabalho de limpeza do terreno, coberto com a vegetação que vai caindo”, conta Roseli. “No futuro, penso em abrir uma trilha ecológica até o rio e cavar tanques para criar peixes. Mas sem dinheiro para investir, por enquanto é tudo sonho, vontade”, disse Roseli, também vice-presidente da associação do Assentamento Contagem.

Metamorfose agrícola
Quatro dos oito hectares da chácara Vida Verde são dedicados à produção que, até 2007, seguia o modelo comum de tudo desmatar para abrir espaços à monocultura, basicamente de alface e chuchu. Há três anos, a propriedade no interior de Ceilândia baniu agrotóxicos e insumos químicos e cobriu a área com uma infinidade de espécies.
“Graças a deus acordei. Minha vida mudou cem porcento, materialmente e psicologicamente. Hoje trabalho menos e ganho mais dinheiro do que no sistema antigo, pois a produção é diversificada e mais valorizada”, comemora o goiano Valdir de Oliveira.
Exemplo de sucesso produtivo, a propriedade recebe profissionais, professores e estudantes interessados em descobrir como recuperar a vitalidade de áreas agredidas pela agricultura tradicional. Da terra viva do Cerrado brotam hoje quiabo, maxixe, abóbora, chuchu, inhame, tomate comum e cereja, bananas, mandioca, cana-de-açúcar, feijão e maracujás.
Ano passado foram colhidas mais de uma tonelada de tomate e outra tonelada de inhame, umas 2 mil varas de cana e quase 4 toneladas de chuchu.
Outro segredo são as parcerias: um vizinho criador de gado troca adubo por capim, enquanto as flores amarelas da crotalária atraem os zangões que polinizam os maracujás. “De fora compramos às vezes apenas fósforo, para alguma correção rápida e pontual. De resto, toda a adubagem é orgânica, feita aqui mesmo”, conta Oliveira.

Preços na balança
O discurso repetido por ruralista sobre o alto custo dos alimentos orgânicos parece cair por terra quando eles são adquiridos fora dos locais tradicionais.
Comparamos preços de seis itens* no dia 6 de outubro, descobrindo que os orgânicos vendidos na feira da Estação Biológica estavam em média 50% mais caros que os produtos convencionais e quase 300% mais baratos que os orgânicos vendidos em um grande supermercado na mesma região.
Ou seja, um produto comum comercializado a um real no supermercado custaria quase R$ 4 se fosse oferecido como orgânico no mesmo local, ou seria vendido a R$ 1,50 nas pequenas feiras de orgânicos do Distrito Federal.
* beterraba, repolho, cenoura, cebola, banana prata, tomate cereja e couve.
WWF-Brasil – EcoAgência

Original em: http://www.ecoagencia.com.br/index.php?open=noticias&id=VZlSXRVVONlYHZFSOZFZhN2aKVVVB1TP

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Fonte: OngCea