Dinheiro que dá em árvore

Acordos de Cancún ratificaram a insensibilidade às demandas sociais e o projeto do mercado como solução para as mudanças climáticas

Vinicius Mansur
enviado a Cancún (México)

Não bastam os diversos desastres ambientais registrados mundo afora. O documento elaborado em Cochabamba, Bolívia, durante a Conferência Mundial dos Povos sobre Mudanças Climáticas, na qual estavam mais de 35 mil pessoas em abril deste ano, tampouco foi suficiente. Não bastaram os mais de 200 protestos realizados em 37 países no marco da jornada de lutas “Milhares de Cancún”. Também não bastaram as duas marchas puxadas pela Via Campesina e os três fóruns realizados – por distintas organizações sociais – paralelamente à Conferência do Clima da ONU (COP 16) em Cancún, México.

Nas palavras do equatoriano Luis Andrango, dirigente da Coordenadoria Latino-Americana de Organizações do Campo (Cloc), “a COP 16 discutiu só soluções de mercado para os efeitos da crise climática que criou e deixou nas mãos do povo, de novo, o dever de enfrentar as suas causas”.

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“Hidroelétrica não é energia limpa”, alerta MAB

Em Cancún, movimento incrementa as críticas às falsas soluções apresentadas pela COP 16

Vinicius Mansur
De Cancún (Mèxico)

Entre as diversas propostas apresentadas na COP 16 – conferência da ONU sobre mudanças climáticas – que visam a combater a crise ambiental incrementando grandes negócios, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) do Brasil atacou aquelas que defendem as hidroelétricas como energia limpa.

“O discurso das grandes empresas e dos governos que as representam é que, em comparação com a energia nuclear, as hidroelétricas representam uma energia limpa. Mas, uma represa construída no Brasil, em Barra Grande (RS), alagou seis mil hectares de araucária”, denunciou a representante do MAB, Tatiane Paulino, na manhã desta segunda-feira (6) em Cancún, durante o painel “Lutas que cruzam fronteiras: água, mineração, petróleo, migração, represas, urbanismo selvagem”, realizado no fórum promovido pela Via Campesina, paralelamente à COP 16.

De acordo com Paulino, o Brasil já tem mais de duas mil represas construídas que afetaram mais de um milhão de pessoas e ainda estão previstos, para os próximos 10 anos, investimentos de 113 bilhões de dólares para construir represas que alagarão cerca de 770 mil hectares de florestas nativas. “As cinco maiores bacias do país estão na Amazônia e todas já comprometidas com projetos do capital”, afirmou.

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Tentativa de votar Código Florestal com urgência gera protestos na COP-16

A tentativa de votar alterações no Código Florestal com urgência no Brasil ecoou em Cancún, durante a COP-16, Conferência do Clima. Além dos brasileiros presentes no evento se mostrarem contra a rápida aprovação, protestos de ONGs também chamaram atenção para o assunto.

O jornal ECO, panfleto que circula pela COP e é feito por ONGs, criticou as alterações do código. Já o Greenpeace estendeu cartazes de protestos e trouxe um papai-noel que distribuiu mudas de árvores para os participantes e dizia “Mudar o Código Florestal = Um Natal sem árvores”. Reportagem de Lilian Ferreira, do UOL Ciência e Saúde, em Cancún, (México)

A ONG entregou ainda o prêmio “Motosserra de Ouro” para a senadora Kátia Abreu, “por sua defesa ferrenha de mudanças no Código Florestal, em prol de mais desmatamentos no Brasil”, de acordo com a organização.

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O que fazer em Cancun?

Escrito por Roberto Malvezzi

O mundo inteiro irá a Cancun. Mais uma vez reúne-se para discutir o “aquecimento global”. Enquanto discutimos, há várias décadas, os gases de efeito estufa continuam aumentando na atmosfera.

Hoje, a concentração de CO2 na atmosfera está ao redor de 386 ppm, isto é, de cada  milhão de outras partículas, 386 são de CO2. Antes da revolução industrial estava ao redor de 288 ppm. Resultado, a temperatura média da Terra, que era de 14,5º C, hoje já passa de 15º C. Parece pouco, mas já é suficiente para causar as tragédias ambientais a que temos assistido. Cada grau a mais trará transtornos inimagináveis.

Aumentou também o metano (CH4), que está em menor porcentagem na atmosfera, mas tem um potencial de aquecimento 21 vezes maior que o CO2.

Aumentou ainda o N2O, ou óxido nitroso, produzido pela agricultura envenenada, também causador do efeito estufa. 

Na prática, esses dados indicam o total fracasso dos mecanismos de mercado para controlar as emissões de gases. Teríamos que ter outras razões, outras práticas, como a diminuição do uso dos combustíveis fósseis, da queima e derrubada das florestas – ao contrário, reflorestar -, da patada ecológica da pecuária e da agricultura sobre a Terra.

Entretanto, basta ver a filosofia desenvolvimentista que adotam o Brasil, China e Índia, além dos europeus, americanos e outros asiáticos, para sabermos que esse modelo nos leva ao abismo. As multidões, embriagadas pelo consumo, não têm distância crítica para vincular a depredação da Terra à sociedade do desperdício. Enquanto tal, a fome e a sede aumentaram em todo o planeta, embora tenham diminuído em alguns lugares, caso do Brasil.

Portanto, embora respeite a boa vontade de muita gente, além do passeio, não há muito que fazer em Cancun. Espero muito mais da sabedoria das populações tradicionais, de sua resiliência, da ecologia dos pobres, daqueles que estão dispostos a construir a “sociedade do bem viver”. Mas, tudo indica, ela não virá sem muita dor e sofrimento.

Espero também que a misericórdia da Terra para com o ser humano seja maior do que a do ser humano para com a Terra. 

Roberto Malvezzi (Gogó), ex-coordenador da CPT, é agente pastoral

Fonte: Correio da Cidadania