Paulo Freire – Pedagogia da Autonomia (parte 3/3)

Última parte da resenha do livro Pedagogia da Autonomia

O capítulo final contempla os últimos nove saberes essenciais para Paulo Freire. A temática principal relaciona-se à ideia de que ensinar é uma especificidade humana, uma influência recíproca das relações homem-homem e homem-mundo. Sobre isso, o autor coloca o primeiro saber: ensinar exige segurança, competência profissional e generosidade. Segurança conquistada na sua prática firme de perguntar, refletir, decidir, reconhecer-se incompleto, avaliar-se, errar e acertar. Competência profissional gerada por essa segurança e seriedade no comando da sua profissão e pela sua autoridade moral, reflexo da coerência entre teoria e prática. E generosidade no trato com os educandos e suas dificuldades, sem qualquer tipo de julgamento, criando um ambiente justo, ético e respeitoso. O segundo ponto diz respeito à exigência de comprometimento do educador para com os outros e consigo mesmo. Ensinar é mostrar-se, revelar suas idéias e sentimentos (na prática pedagógica é impossível uma neutralidade), ser submetido à avaliação dos outros, e, por conseguinte, preocupar-se com o seu desempenho profissional. No terceiro, em razão da natureza social humana, o ensinar é uma intervenção do homem no mundo, seja para manter, seja para modificar a ideologia dominante e o estado social, político e econômico da realidade.

O quarto saber é: ensinar exige liberdade e autoridade. Duas características aparentemente contraditórias por causa de suas deformidades – a licenciosidade e o autoritarismo. A liberdade requer limites, ainda sutis de se descobrir. Porém, são eles, juntamente com a coerência e o exemplo, que conferem autoridade à pratica democrática/libertadora. É preciso saber reconhecer o tempo e o espaço adequados ao uso dos limites. No quinto, o autor revela a exigência da tomada consciente de decisão, explicando-a pelo que chama sabiamente de politicidade de educação. Esta é naturalmente política em razão de o homem ser inacabado e ter consciência disso. Com isso, ele torna-se um ser ético, de opções, de possibilidades, de decisões. Logo, por ser político, o educador não pode agir com neutralidade.

O sexto saber é: ensinar exige saber escutar. Para aprender a falar com os educandos – e não, de forma impositiva, sobre ou para eles –, o educador precisa escutá-los crítica e humildemente. Com isso, aprende-se a silenciar-se e a ouvir o que o outro fala, gerando um ambiente solidário e democrático.

Na esteira da politicidade da educação, vem o sétimo ponto, em que o autor afirma que se deve reconhecer que a educação é ideológica. O educador deve, de um lado, duvidar de suas certezas, e de outro, estar aberto ao contato com o outro, com o diferente. Deve estar disposto a repensar suas verdades e a questionar a ideologia capitalista dominante. Aqui, quebra-se a barreira do cientificismo “imparcial” e a simples transferência de conteúdo na educação, pois abre a possibilidade de mudanças sociais que condenem o atual estado das coisas. O penúltimo saber do capítulo diz sobre a disponibilidade para o diálogo por parte de quem ensina, falando e ouvindo com quem aprende. A conversa franca com o outro provoca a assunção de que ninguém sabe tudo ou ignora tudo. Essa disponibilidade à realidade, com a qual se constrói a segurança do educador, deve considerar ainda conhecer o contexto ecológico, social e econômico.

No último saber, Paulo Freire reafirma a importância da ética na prática pedagógica. Ensinar exige querer bem aos educandos, estar aberto humildemente as suas emoções, sentimentos, sonhos, descartando a ditadura da racionalidade. Significa unir a seriedade docente com a afetividade, afinal, todos gostamos de ser bem tratados.

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