[Brasília]: Cacique Raoni na UnB: “Minha guerra agora é contra a usina de Belo Monte”

Ciência e tradição se unem contra usina de Belo Monte


Índios e especialistas discutem impactos ambientais e sociais da usina. Abaixo-assinado com mais de 500 mil assinaturas será entregue para a presidente Dilma amanhã
Thássia Alves – Da Secretaria de Comunicação da UnB

A maloca moderna pensada por Darcy Ribeiro transformou-se em um parlatório do movimento indígena contra a construção da usina de Belo Monte, nesta segunda-feira, 7 de fevereiro. Kaiapós, jurunas, araras, terenas, tukanos, macuxis, guajararás e kaigongs se uniram em coro para mostrar aos brancos o temor que a construção das barragens ao longo do rio Xingu provoca. Índios, autoridades, especialistas e ativistas levarão até o Congresso Nacional um abaixo-assinado com mais de 500 mil assinaturas contra a construção da hidrelétrica nesta terça.

“Se a Belo Monte for construída, os indígenas e as florestas serão prejudicados. Não estamos acostumados a criar bichos. Comemos o que há na mata”, disse Raoni Metyktire, líder kaiapó. Além da preocupação com a alimentação, o cacique reforça outro problema: a falta de terras. “Não tem mais espaço. Vocês já ocuparam tudo”, afirmou Raoni. Ele estava na plateia, mas foi convidado pelo diretor do Instituto de Ciências Sociais, Gustavo Lins Ribeiro, para sentar-se na mesa de debates.

Gustavo Lins disse que é preciso mudar o conceito de desenvolvimento. “A concepção de desenvolvimento do branco é diferente do índio. Quem fica com o prejuízo são os indígenas e os povos locais”, afirmou. Segundo ele, os bilhões que serão gastos para fortalecer grandes companhias não bastam para amenizar os danos causados aos povos locais.

A usina de Belo Monte será construída no baixo rio Xingu, localizado no estado do Pará. A polêmica em torno da construção existe há mais de 20 anos. Mas foi intensificada em fevereiro de 2010, quando o Ministério do Meio Ambiente concedeu licença ambiental para a obra. Muitos movimentos sociais e principalmente indígenas são contrários à obra em razão dos danos sociais e ambientais e do desalojamento de comunidades nativas.


Alexandra Martins/UnB Agência
A comunidade acadêmica e grupos indígenas lotaram o Beijódromo no primeiro dia de seminário.

Raoni mostrou indignação com o governo Lula. “O antigo presidente (FHC) não era assim. JK não era assim. Sarney não era assim. Itamar Franco não era assim”, comparou. “Hoje o Lula defende o PAC. Nós já falamos que a Dilma, a Eletronorte ou a Eletrobrás podem encher aquele lugar de dinheiro. Mas não vamos aceitar esse dinheiro, que vai pagar a inundação do nosso lugar”, completou Megaron Txukarramãe.

Antônia Mello, presidente do Movimento Xingu Vivo, aproveitou a ocasião e fez um chamado para que a sociedade se organize vá para as ruas. “Não temos força política para brigar. Todo Congresso é a favor desse projeto de morte e destruição”. A ativista também disse ter se decepcionado com o ex-presidente. “Lula não honrou sua palavra. Ele nos prometeu que não iria nos enfiar Belo Monte guela a baixo”, contou.

O antropólogo Ricardo Verdum, do Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC), acredita que outras formas de geração de energia deveriam ser cogitadas pelo governo. “Existem alternativas eólicas e solares que podem suprir essa necessidade com baixo custo. O Brasil possui condições técnicas para fazer esse serviço de outra maneira”. O antropólogo afirma que é preciso criar um grupo de trabalho que posso estudar novas alternativas para geração de energia. “Sempre é possível inverter uma decisão política”, acredita.

Além da população indígena, a construção da usina pode desabrigar ribeirinhos e produtores agrícolas. Mário da Silva, 24 anos, nasceu em Altamira e herdou do pai a profissão. O plantio de arroz, milho e mandioca é o que garante a subsistência de sua família. “Plantamos para comer e vender. Para onde seremos deslocados? Ninguém sabe. Por isso, não aceitamos a hidrelétrica”.

Durante a abertura do seminário Perspectivas sobre Belo Monte, o reitor José Geraldo de Sousa Júnior afirmou que é a UnB foi criada para abrigar debates como esse. “A Universidade de Brasília se sente fiel a sua missão quando abre espaço para um discussão como essa. Somos assim, um lugar onde há o cruzamento de todos os modos de interpretar o mundo”.

As discussões continuam nesta tarde com a mesa Problemas e Dilemas, que será coordenada pela presidente da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), Bela Feldman-Bianco.

Fonte: UnB Agência

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