[Brasília]: Intensa expansão demográfica deixa DF à beira de um colapso

A tragédia pode ser evitada se houver investimentos nos municípios vizinhos, desviando a atual pressão sobre os serviços públicos do DF

Juliana Boechat

Mara Puljiz


Morador de Luziânia, Lenivon Lemos sustenta a família com o emprego de cozinheiro na capital federal: ‘O salário em Brasília é melhor’ (Fotos: Carlos Silva/Esp. CB/D.A Press )

Se não houver uma urgente mudança na política de desenvolvimento econômico no sentido de beneficiar a capital federal, sem deixar de lado a região do Entorno, especialistas preveem que os problemas decorrentes de um aumento populacional não planejado ficarão fora de controle. Entre as preocupações estão o aumento da pressão sobre a rede pública de saúde, a escassez de escolas e creches, além da menor oferta de água tratada e emprego.Essas dificuldades atuais tendem a se agravar e levar a capital federal a um colapso. “Se não houver um investimento voltado para a população do Entorno, Brasília tende a ficar inviabilizada em 30 anos, pela superlotação dos hospitais, problema de abastecimento de água e falta de vagas nas escolas”, prevê o antropólogo e sociólogo Antônio Flávio Testa, levando em conta os dados do Censo 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Na opinião de Antônio Testa, que também é pesquisador de gestão de políticas públicas da Universidade de Brasília (UnB), hoje o Entorno é uma região de grande pobreza. A maioria das pessoas, moradoras de cidades como Águas Lindas de Goiás, Luziânia, Novo Gama, migrou de Minas Gerais, da Bahia ou do interior de Goiás, na esperança de melhorar de vida, devido à proximidade com Brasília. “Onde tem capital é natural que ela seja um polo de atração. Brasília é o coração logístico e o cérebro administrativo do Brasil. A tendência é ter mais gente passando por aqui. Brasília e Goiânia, por exemplo, deverão estar cada vez mais próximas geograficamente”, explicou.

Infraestrutura
Sem perspectiva de crescimento na cidade onde moram, devido à falta de infraestrutura e investimentos por parte do governo, famílias inteiras buscam uma oportunidade de emprego em Brasília. O cozinheiro Lenivon Pereira Lemos, 37 anos, ilustra essa situação. O sustento da casa dele, em Valparaíso (GO), sai de Brasília. Funcionário do Beirute, um dos bares mais tradicionais da capital federal, ele mantém o emprego conseguido nove anos atrás. Apesar da distância, não pensa em procurar novas oportunidades na cidade onde mora. “O salário em Brasília é melhor. Se eu precisasse, buscaria outro emprego na capital federal.”

Lenivon leva a família ao Gama quando precisa resolver questões de saúde. “Vamos lá em casos de emergência e para marcar consultas. Só conseguimos resolver as coisas simples por aqui” , explicou.


Fernando dos Santos vive em Águas Lindas há 15 anos e se preocupa com a educação das filhas (Fotos: Carlos Silva/Esp. CB/D.A Press )

Os dois filhos do cozinheiro estudam em Valparaíso, mas devem cursar o segundo grau no Distrito Federal. “Vamos tentar conseguir uma vaga lá. Por mais que seja longe, a qualidade de ensino é melhor. Até quando pensamos em faculdade, pensamos em Brasília”, diz Lenivon. A preocupação também ocupa a cabeça do operário Fernando Figueiredo dos Santos, 27 anos, morador de Águas Lindas há 15. As filhas Beatriz, 7 anos, e Bianca, 4, andam aproximadamente um quilômetro para chegar à escola todos os dias. No futuro, ele pensa em levá-las para o DF.

Com o carro particular, o operário se desloca diariamente até a obra do Veículo Leve sobre Trilhos, no fim da Asa Sul para ganhar o sustento da casa. Como a construção está embargada pela Justiça, ele tem passado grande parte do tempo com a família. Fernando compartilha a opinião de Lenivon de que, em Brasília, os salários e as condições de emprego são melhores. “A falta de mão de obra em Brasília é grande e aqui não tem emprego, mal temos um comércio. Então, as oportunidades surgem lá mesmo. Eu gosto de Águas Lindas, mas sofremos aqui um descaso de 13 anos”, disse.

Grande Brasília
De acordo com o sociólogo Antônio Testa, é preciso proporcionar oportunidades. Para ele, a alternativa é a criação de uma região metropolitana em que os recursos da União são melhores distribuídos, e a aprovação de leis que favoreçam Brasília e o Entorno, independentemente dos limites geográficos.

“Temos que transformar Brasília e Goiás em um grande estado, com políticas de desenvolvimento voltadas para o crescimento. Nos próximos anos, é de se esperar que haja uma grande Brasília, que vá até Rio Verde (GO)”, defendeu o sociólogo. Sem que haja uma intervenção eficiente, Brasília não terá mais condições de oferecer atendimento aos que vêm de fora. “Não há como absorver esse pessoal. O transporte de Brasília foi eleito o pior e o mais caro do país. A região é a 11ª mais violenta do Brasil. Se não tiver uma nova e urgente política pública, vai crescer a desagregação familiar, a violência e a população, de modo geral, vai ficar à mercê do crime”, previu Testa.

Conurbação
Para o geógrafo e especialista em expansão metropolitana da UnB, Aldo Paviani, a população do Entorno é muito além do que os municípios podem suportar. “É uma população muito grande para locais que não têm emprego. O transporte é precário entre uma série de outras dificuldades. Além do mais, a proximidade da capital federal é injusta. Há uma infinidade de pessoas que se mudaram para Luziânia porque, aqui, os aluguéis são elevados e elas não têm condições de se manter. Quem não ganhou um lote também foi obrigado a sair de Brasília. Se dentro não pode ficar, naturalmente as pessoas mudam para locais onde elas consigam viver”, explicou.

Para evitar uma possível unificação da malha urbana, Paviani avalia que é necessário aumentar o número de empregos nas regiões administrativas que têm relativa autonomia em relação ao centro. Com a descentralização das atividades no Plano Piloto, as demandas relacionadas ao emprego, por exemplo, podem ser mais facilmente absorvidas pela população do Entorno, minimizando, assim, a desigualdade social.

MEMÓRIA
Caóticos 100 anos
Um grupo de especialistas da Universidade de Brasília (UnB) e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) deverá concluir ainda este ano um planejamento estratégico do DF e do Entorno, batizado de Projeto BSB 100. No documento de 155 páginas, os estudiosos traçam os principais problemas dos brasilienses. Alertam que, se nenhuma providência for tomada no futuro próximo, Brasília sofrerá ainda mais com a desigualdade social, quando estiver prestes a completar 100 anos.

Segundo o coordenador do projeto e diretor-geral do Laboratório de Estudos Avançados da PUC-RJ, Tadao Takahashi, o Entorno “sufocará” Brasília. Marcos Formiga, economista e especialista em estudos do futuro da UnB, que também participou do projeto, acredita que a aproximação das cidades formará um grande conglomerado que unirá Brasília a Goiânia.

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