Dilma, Serra e o meio ambiente

Muitas críticas têm sido feitas à ausência de debates nesta campanha sobre temas realmente relevantes para o país. Para quem considera a questão ambiental a mais importante entre todas as questões nacionais, o desconforto é ainda maior: o assunto tem sido praticamente ignorado pelos candidatos à presidência. Apesar da presença de Marina Silva na disputa, o tema só tem sido tratado de forma superficial e os graves problemas ambientais sob os quais estamos imersos não são abordados com seriedade. Principalmente nesse segundo turno, Dilma e Serra vão além: disputam quem é o maior defensor do aprofundamento do modelo de desenvolvimento predatório vigente.

Ambos se dizem ambientalistas, mas não explicam como pretendem resolver o grande dilema atual, que opõe crescimento econômico e preservação do meio ambiente. Em outras palavras, nenhum dos candidatos admite ser contra a preservação da natureza, mas ao mesmo tempo louvam e incentivam a aventura irresponsável do Pré-Sal, onde gastaremos trilhões na arriscada empreitada de tentar tirar petróleo de uma região do mar profundo nunca antes explorada, onde as chances de acidentes como o ocorrido no Golfo do México são muito grandes. Vale lembrar a contradição de que Lula e Dilma, antes da descoberta do pré-sal, defendiam pelo mundo as maravilhas do etanol e diziam que deveríamos abrir mão do petróleo “em nome da defesa do meio ambiente” e para “reduzir a emissão de CO2”. De uma hora para a outra eles se esqueceram de toda essa conversa e Lula diz que o petróleo do Pré-Sal é uma “dádiva de Deus”. Outra questão fundamental e ignorada é a necessidade urgente de mudança da matriz energética brasileira para fontes realmente renováveis, como a eólica e a solar.

Apesar da ligação do PT com os movimentos ambientalistas nos anos 1980 e 1990, uma vez na presidência, a obstinação de Lula com o crescimento do PIB sempre esmagou qualquer apelo ambiental que ousou cruzar seu caminho. Ele sempre exigiu taxas de crescimento chinesas, não importando como nem a que custo. Entre todos os expoentes do governo federal, talvez Dilma seja a pessoa que melhor representa este tipo de visão. A forma como o governo passou e continua passando por cima da lei para impor a construção de usinas hidrelétricas na Amazônia, como a de Belo Monte – com o principal objetivo de criar a infra-estrutura necessária para alimentar a devastadora atividade mineradora na região –, é apenas uma entre as muitas formas de ilustrar essa postura radical.

Quanto a Serra, sua trajetória, o histórico de seu partido no poder e seu discurso atual deixam claro seu alinhamento ou até mesmo um aprofundamento deste tipo de visão de Dilma e Lula. Apesar de algumas medidas ambientais periféricas porém interessantes quando no governo de São Paulo, pesa também contra o tucano a desastrosa gestão das Unidades de Conservação paulistas e o “fator Xico Graziano”, secretário do Meio Ambiente de Serra quando governador e o nome mais provável para o ministério, que é um defensor obstinado e declarado dos interesses do agronegócio.

Apesar de meu desencanto, declaro aqui meu voto em Dilma no segundo turno, principalmente por acreditar que ela dará continuidade a um modelo de gestão que está alimentando mais e melhor os brasileiros famintos e tirando milhões da miséria. Mas é preciso ir muito além de simplesmente aumentar o poder aquisitivo do povo. É necessária a aplicação de estratégias paralelas de educação para o consumo e restrições severas à produção e venda dos produtos que mais agridem a natureza.

Quem busca informação sabe que esse incentivo ao consumo desenfreado é insustentável sob qualquer análise. Ter como objetivo que cada brasileiro consiga atingir o padrão de consumo da classe média gastadora é uma caminhada rumo ao precipício se a meta de elevar o padrão de consumo da multidão de pobres não vier acompanhada de um profundo questionamento sobre como se dará a sustentação deste crescimento.

É preciso de um lado pensar o quê será produzido e vendido. Isso inclui a análise dos recursos naturais necessários (se são nocivos, tóxicos, considerar as reservas ainda disponíveis – uma vez que todos são finitos) e o tipo de processo necessário, uma vez que alguns são muito mais agressivos que outros (consumo de água e energia, poluição das águas). Na outra ponta, é necessário pensar, antes de definir que produtos terão sua produção e venda incentivada, o tempo de vida útil e o que vai acontecer quando forem descartados: se poderão ser reciclados, se têm elementos tóxicos em sua composição etc.

Resumindo: antes de incentivar o consumo pura e simplesmente, é primordial pensar de que forma exatamente esse crescimento do consumo se dará, definindo que bens serão prioritariamente consumidos e o que acontecerá com eles quando forem para o lixo.

Não há argumentos que justifiquem esse incentivo cego ao consumo. Não podemos aceitar que a melhora das condições de vida da população excluída represente o esgotamento e a contaminação ainda maior dos recursos naturais dos quais todos nós, pobres, remediados e ricos, dependemos para nossa sobrevivência.

Se esse esgotamento se confirmar, terá sido perdido todo o eventual bem conquistado por um governo de origem popular – que tem sido inovador em diversos aspectos, mas não no ambiental. O que ficará para a história neste caso não terá sido a mão estendida para os excluídos, mas sim a oportunidade perdida de mudar a tempo o rumo, antes do desastre.

Se faltar essa sensibilidade, os governantes do início do milênio serão lembrados nos livros de história do futuro por terem sido incapazes de fazer a leitura correta dos desafios que a época em que viveram exigiam deles. Especialmente os políticos que terão governado este cantinho (ainda) verde do planeta.

Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista.

Fonte: Correio Cidadania

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